“Quimera”, o novo trabalho de Caroline Bergeron, da companhia Caótica, estreia no Teatro Viriato, em Viseu, esta sexta-feira e sábado (30 e 31 de outubro). Esta sexta-feira é dedicada às escolas e sábado às famílias, a partir das 16h00.
Em cena, um ecrã de múltiplas camadas acolhe um universo visual onde corpo, objetos, luz, sombras e canto se combinam para construir uma narrativa que dispensa palavras. Entre o humor e a ambiguidade das imagens, “Quimera” convida o público a olhar para aquilo que vê e que imagina. O espetáculo propõe assim um olhar livre e provocador sobre o feminino, desafiando as expetativas sociais e os modelos que condicionam a forma como nos vemos e nos apresentamos ao mundo.
“Quimera nasce de uma inquietação minha em torno da feminilidade e da forma como esta é construída, condicionada e representada na nossa sociedade. Ao longo dos anos, fui observando como tantas mulheres e raparigas sofrem por não corresponderem aos modelos de feminilidade que lhes são impostos. Apesar das conquistas das últimas décadas, continuamos rodeadas de imagens, expectativas e regras, muitas vezes invisíveis, que determinam como uma mulher deve parecer, comportar-se ou movimentar-se. Comecei então a questionar-me: o que é, afinal, ser feminina? Quem define essa feminilidade? Até que ponto aquilo que consideramos uma escolha pessoal é realmente uma escolha livre?”, explica Caroline Bergeron.
Em vez de oferecer respostas ou propor um novo modelo a seguir, o espetáculo abre espaço para a descoberta de uma feminilidade singular, feita de desejos, contradições, experiências e escolhas.
A criação nasce do trabalho de pesquisa de Caroline Bergeron e Sara Franqueira desenvolvido em residências artísticas que também passaram pelo Teatro Viriato, a partir de materiais e dispositivos simples como um pano, lanternas e um retroprojetor de acetatos.
“Na sombra de alguém, não conseguimos perceber se está a sorrir ou não. Não vemos o rosto, não distinguimos as expressões. Vemos e, ao mesmo tempo, não vemos. E é precisamente essa ambiguidade que me fascina. As sombras mostram-nos o suficiente para despertar a curiosidade, mas escondem o suficiente para deixar espaço à imaginação. Há qualquer coisa de íntimo e misterioso nessa relação. Tornamo-nos uma espécie de espectadores clandestinos, com a estranha sensação de estarmos quase a conseguir espreitar a alma de alguém. A sombra não nos dá todas as informações, não nos impõe uma interpretação. Cada espectador é convidado a preencher aquilo que não vê com a sua própria sensibilidade e as suas experiências”, explica a encenadora.

